Atualização em 16 de abril: o Parlamento Europeu esclareceu este tema sobre a fibra de carbono. Entenda o que está em jogo acessando este link.
A fibra de carbono pode estar prestes a deixar de ser tratada como um material “nobre” na indústria automotiva. A União Europeia avalia uma mudança na diretiva sobre veículos em fim de vida, o que pode levar à classificação da fibra de carbono como substância perigosa.
Se a proposta avançar e for aprovada, a aplicação do material em automóveis novos ficaria proibida a partir de 2029. É uma notícia ruim para carros esportivos e para modelos 100% elétricos, que encontraram na fibra de carbono uma aliada importante para reduzir peso e, com isso, cortar emissões.
Proibir a fibra de carbono por quê?
Na visão dos reguladores europeus, os riscos ambientais e à saúde ligados à reciclagem e ao descarte da fibra de carbono são motivo suficiente para justificar a medida.
Durante a desmontagem, fibras muito finas podem se soltar e se tornar voláteis, causando irritações na pele, afetando as mucosas e até o revestimento de órgãos. Além disso, por serem condutivas, essas fibras podem provocar curto-circuitos em máquinas usadas no processo de reciclagem, adicionando mais um fator de risco para os trabalhadores.
Caso a ideia siga adiante, a fibra de carbono passaria a aparecer ao lado de chumbo, mercúrio, cádmio e cromo hexavalente na lista de substâncias restritas da União Europeia. Ainda assim, o caminho legislativo é longo: antes de virar lei, a proposta precisa passar pela Comissão Europeia, pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia.
Um golpe no coração dos supercarros
Os efeitos para a indústria automotiva estão longe de ser pequenos. Marcas de luxo, fabricantes de modelos de alto desempenho e montadoras de carros elétricos - que recorrem à fibra de carbono para controlar massa e melhorar eficiência - podem ser obrigados a refazer seus planos.
Mais do que um material leve e resistente, a fibra de carbono virou um símbolo de engenharia sofisticada. Basta observar o papel que ela tem em superesportivos de marcas como McLaren, Koenigsegg e Pagani - e, mais recentemente, também em modelos com propostas mais “verdes”.
Perdas avultadas na economia
O mercado global de fibra de carbono, estimado em 5,48 mil milhões de dólares, deve chegar a 17,08 mil milhões em 2035. Esse ritmo de expansão pode ser interrompido - ou, no mínimo, bastante prejudicado - por essa nova postura de Bruxelas.
Os números foram divulgados no Relatório de Mercado Global da Fibra de Carbono, da Precedence Research, uma empresa internacional de análise de mercado.
Para os fabricantes japoneses - especialmente Toray Industries, Teijin e Mitsubishi Chemical - que concentram mais de metade do mercado mundial (52%), o cenário é ainda mais delicado.
Pagani e o momento em que tudo mudou
A trajetória da fibra de carbono em carros de produção daria um filme. Italiano, naturalmente.
Na década de 80, Horacio Pagani, então engenheiro na Lamborghini, chefiou o desenvolvimento do Countach Evoluzione - um protótipo extremamente leve, feito com painéis de fibra de carbono, que apontava para uma nova era dos supercarros. Ele pesava cerca de 500 kg a menos que o Countach de produção, era mais rápido e também mais eficiente.
Pagani via os compósitos como o próximo passo inevitável para desempenho. Por isso, pediu à direção da Lamborghini que investisse em uma autoclave para fabricar peças de fibra de carbono. A resposta foi não. O argumento? "Se a Ferrari não usa, nós também não precisamos usar."
O desdobramento, ironicamente, confirmou tudo o que Pagani defendia. Em 1987, a Ferrari lançou a F40, o primeiro carro de produção em série a utilizar amplamente materiais compósitos - com painéis em fibra de carbono, kevlar e nomex - e peso total abaixo dos 1100 kg. A Lamborghini percebeu o equívoco. Horacio Pagani estava certo.
Tão convicto de que a fibra de carbono era o futuro, Horácio Pagani vendeu o que tinha, fez um empréstimo pessoal e comprou a autoclave que a Lamborghini havia recusado. Assim nasceu a Pagani Composite Research, a incubadora da Pagani Automobile.
Para lá dos automóveis
Embora os automóveis respondam por apenas 10% a 20% das aplicações totais da fibra de carbono, uma proibição nesse setor pode desencadear um efeito dominó.
A aviação civil e a indústria eólica - áreas em que o material é crucial para componentes de aeronaves e pás de turbinas - podem acabar como os próximos focos de regulamentação.
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