805 km de autonomia, recarga em 10 minutos e um visual repaginado: o BMW iX3 é o modelo que abre o novo capítulo “Neue Klasse” da marca bávara. E, desta vez, chamar de “revolução” não parece exagero - é uma virada de página de verdade.
“778 km”. Precisei semicerrar os olhos três vezes seguidas para aceitar que a equipe da BMW não estava blefando. Não é que eu desconfie do que dizem, claro, mas a consciência profissional manda conferir… E, de fato, a autonomia estimada pelo BMW iX3 fica bem perto da promessa. 805 menos 778 dá 27. Em relação ao valor no ciclo WLTP, 27 km de diferença é praticamente nada.
No momento, essa é a característica mais chamativa do novo iX3. Como o primeiro contato aconteceu em um estacionamento escuro colado ao aeroporto de Valência, ficou difícil enxergar com justiça o estilo “Neue Klasse” adotado pelo SUV elétrico. A frustração dura pouco: ao sair do subsolo, o sol forte entrega o que mais chama a atenção - um interior bem fora do padrão. A sensação é clara: a apresentação não parece “BMW” como antes.
Panoramic Vision: quando a BMW reinventa totalmente o interior
O conjunto de instrumentos tradicional, escondido sob aquela “aba” à frente do motorista, simplesmente desapareceu. O iX3 estreia o BMW Panoramic Vision: uma enorme faixa digital posicionada na base do para-brisa. E aquela autonomia impressionante era só uma pequena amostra do que essa área consegue exibir: velocidade, navegação, multimídia, bússola, previsão do tempo, data, força G, conta-giros… Pode até não ser essencial, mas o ponto é que tudo pode ser configurado.
A atmosfera, convenhamos, é diferente. A tela central de 18 polegadas - aparentemente “empurrada” para a esquerda, como se tivesse levado uma rajada lateral - responde rápido. Os gráficos são simples, porém agradáveis. Atalhos na parte inferior ajudam a chegar rápido às funções principais, como a ventilação. Destaque também para o volante incomum, com raios dispostos de forma mais vertical. As teclas semi-táteis, por outro lado, tornam o uso menos intuitivo.
Menos capricho, mais plástico? O outro lado da moeda
Enquanto meu companheiro de viagem encara os engarrafamentos de Valência, dá para focar no acabamento: ele é bom, mas já não é tão bom quanto era. As áreas inferiores, em geral, recebem menos cuidado do que as partes superiores. Uma pena - modelos anteriores eram mais meticulosos nesse ponto. Os bancos são confortáveis, mas oferecem pouco apoio lateral. Quem quiser assentos mais envolventes terá de mirar a versão M Sport.
Atrás, há uma boa notícia: o assoalho é plano. A má é que ele não fica baixo o suficiente por causa das baterias, o que resulta numa postura nem sempre natural. Em compensação, o acabamento das portas traseiras é pelo menos tão bom quanto na frente. O porta-malas de 520 litros está dentro do esperado, embora o vão de carga seja um pouco alto. Ele ainda vem acompanhado de um compartimento dianteiro de 58 litros, não muito largo, mas com boa profundidade.
2 360 kg na balança, mas uma agilidade desconcertante em curvas
O primeiro trecho de rodovia é perfeito para avaliar o conforto do iX3. O isolamento acústico é convincente mesmo sem vidros laminados. Diferentemente de alguns rivais, não é necessário “brigar” com os assistentes de condução - eles parecem bem calibrados. O resultado é relaxante. A suspensão, mais firme em baixa velocidade, fica mais suave quando o ritmo sobe. Vale registrar que a suspensão adaptativa, curiosamente, não aparece nem como opcional. Não chega a ser um problema, porque o acerto do chassi entrega um equilíbrio muito competente entre dinamismo e maciez.
E aí vem o clichê que, desta vez, é verdadeiro. Depois de “passar a perna” no colega que ficou com o trânsito urbano e vias rápidas, eu assumo o volante rumo às montanhas. E a surpresa é grande: mesmo com 2 360 kg, o iX3 contorna curvas e faz as voltas fechadas como se não pesasse nada. A sensação é estranha, mas real - quase não há rolagem de carroceria.
Melhor ainda: o pedal de freio transmite uma sensação natural, limpa, como em carro a combustão - algo raríssimo em elétricos. A resposta começa suave e vai ganhando progressividade conforme se aprofunda o pedal, sem transições desagradáveis. O porquê? Um ajuste que faz com que 98% das desacelerações sejam realizadas pela regeneração. As pastilhas entram em ação em apenas 2% das situações.
Recarga 800V: 10 minutos para 372 km, adeus ansiedade no carregador
No dinamismo, a entrega é impressionante. E, claro, as acelerações são fortes com 469 cv - mas isso vários concorrentes também oferecem. O que deve deixar muita gente para trás é o desempenho na recarga rápida. Com arquitetura de 800 V, o iX3 aceita até 400 kW em corrente contínua (DC). Na prática, isso permite recuperar 372 km de autonomia em 10 minutos. Em outras palavras, a discussão sobre “tempo parado no carregador” perde força.
Já o visual tende a dividir opiniões, para o bem ou para o mal. A peça preta na dianteira, evocando a grade da BMW 1500 dos anos 1960, sinaliza uma ruptura clara. De lado, as rodas de 20 polegadas parecem pequenas para o porte do carro. O ideal é partir, no mínimo, para 21 polegadas, para preencher melhor os para-lamas. A traseira também levanta dúvidas: duas lanternas grandes ocupam boa parte da tampa do porta-malas. A BMW já fez desenhos mais sedutores.
Consumo na rodovia: o “milagre” das novas células cilíndricas
Com novas células cilíndricas, a bateria de 108,7 kWh vem acompanhada de um consumo de energia especialmente baixo. Com 19 kWh/100 km medidos na autoestrada espanhola a 120 km/h, sem economizar nos itens de conforto, a eficiência parece realmente boa. E convém lembrar o tamanho do conjunto: o iX3 tem 4,78 m de comprimento, 1,90 m de largura e 1,64 m de altura. Não é um veículo discreto em área frontal.
Tirando o porte e a firmeza em baixa velocidade imposta pela suspensão, o alemão continua sendo agradável na cidade, com um diâmetro de giro relativamente contido - mesmo sem eixo traseiro direcional. O modo One Pedal surpreende pela suavidade, sem trancos até parar completamente. Já a direção é leve; talvez leve demais. Em estrada, a assistência continua excessiva, inclusive no modo Sport.
Por que a versão mais barata é estranhamente a melhor
Em contrapartida, a lista de opcionais não segue aquele padrão “alemão” de inflar a fatura - e isso é um ponto positivo. Os extras são poucos e evitam que o preço dispare sem necessidade. O BMW iX3 parte de 64 550 € na versão 40, com 320 cv e 635 km de autonomia. A opção 50 xDrive sobe para 71 950 €, oferecendo em troca tração integral. Entre nós, faz mais sentido economizar na compra e ficar com o 40, que já dá conta de praticamente qualquer uso. Só não conte isso para a BMW…
Nossa opinião sobre o BMW iX3
No “desejômetro” da BMW, o iX3 dificilmente vai brigar pelas primeiras posições - e talvez nem pelo meio do pelotão. Ainda assim, ele tem argumentos fortes no que realmente importa em um elétrico: autonomia, recarga e consumo. Some a isso o conforto em velocidade alta e uma lista de equipamentos completa. Em contrapartida, gostaríamos de ver mais maciez no uso urbano, mais cuidado com a qualidade do acabamento e uma ergonomia mais bem pensada no posto de condução. Mas se a prioridade é viajar rápido e longe com a família, o iX3 está, sim, entre os melhores elétricos nesse tipo de exercício.
Entre a autonomia recorde e o visual que quebra padrões, a BMW finalmente convenceu todo mundo ou acabou deixando o DNA da marca pelo caminho? Conte para nós nos comentários!
BMW iX3 50 xDrive
71 950 €
Nota: 8.5
Veredito
8.5/10
Gostamos
- Autonomia recorde
- Consumo contido
- Recarga rápida eficiente
- Equilíbrio entre conforto e dinamismo
Gostamos menos
- Suspensão firme em baixa velocidade
- Ergonomia ainda a evoluir
- Qualidade de acabamento em queda
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