Enquanto o diesel ultrapassa 2,30 €/L e a Comissão Europeia faz um apelo oficial para reduzir o consumo de petróleo, o teletrabalho aparece como a forma mais direta de aliviar a pressão sobre os trabalhadores. O problema é que a França está entre os poucos grandes países que não adotam nenhuma medida nesse sentido.
Com o litro do diesel acima de 2,30 euros e a gasolina encostando em 2 euros, abastecer virou um gasto que, para milhões de franceses, passou a disputar espaço com o valor do aluguel. Desde o início do conflito no Oriente Médio, há um mês, o petróleo subiu 60% e o gás 70%, elevando a conta energética europeia em 14 bilhões de euros.
Para quem depende do carro para chegar ao trabalho, a conta ficou cristalina: o combustível agora consome entre 10 e 20% do salário líquido, segundo estimativas de consultorias de recrutamento. Há quem tenha a sensação de estar trabalhando no prejuízo. “Eu trabalho pela glória”, ironiza, ao 20Minutes, um internauta que percorre trinta quilômetros para chegar ao escritório todas as manhãs.
A Europa diz “consumam menos”, e a França olha para o outro lado
Diante dessa disparada, a Comissão Europeia endureceu o tom. O comissário de energia Dan Jorgensen pediu aos Vinte e Sete que reduzam a demanda por petróleo, “suscetível de piorar”. Mesmo que a paz volte rapidamente, as infraestruturas energéticas destruídas no Oriente Médio impediriam uma normalização por um bom tempo.
Entre as medidas destacadas por Bruxelas e pela Agência Internacional de Energia: reduzir a velocidade nas autoestradas, incentivar a carona solidária, usar transporte público e, principalmente, ampliar o teletrabalho. Segundo a AIE, sair de zero para três dias de teletrabalho por semana diminui em 20% o consumo de combustível de um trabalhador. Sem plano de 5 bilhões, sem cheques, sem decreto: basta um notebook e uma ligação à internet.
O contraste entre as respostas dos países é marcante. A Espanha lançou um pacote de 5 bilhões de euros, com redução de IVA e um desconto que pode chegar a 30 centavos por litro na bomba. A Itália baixou os preços em 25 centavos por litro por decreto. Portugal e Suécia adotaram medidas semelhantes.
Já a França criou ajudas direcionadas de cerca de 70 milhões de euros para agricultores, pescadores e transportadores rodoviários. Nada para os 27 milhões de pessoas ativas que pegam o carro toda manhã. E, no tema teletrabalho, o governo não anunciou nenhuma orientação nacional. Enquanto isso, a Indonésia impôs um dia obrigatório de teletrabalho para funcionários públicos, o Vietnã estimula a semana de quatro dias e o Sri Lanka adotou a mesma linha.
Por que a França se afasta do teletrabalho?
O paradoxo francês chama atenção. O país tem infraestrutura digital, ferramentas colaborativas e a vivência do período de confinamento para expandir o teletrabalho em larga escala. Segundo o INSEE, um quarto dos franceses já declarava teletrabalhar regularmente em 2024.
Alguns empregadores perceberam a urgência e já criaram novos arranjos para aliviar o peso financeiro sobre os funcionários. Ainda assim, são ações pontuais. Em muitas empresas, a direção sequer responde às sinalizações dos trabalhadores. Com isso, os sindicatos passaram a intensificar a pressão em todo o país.
Os argumentos de quem resiste ao teletrabalho são compreensíveis. Na França, menos de 50% dos assalariados podem, de fato, ter acesso a ele. Para os demais (profissionais de saúde, comerciantes, professores, artesãos, motoristas), ficar em casa não é alternativa. Só que são justamente esses trabalhadores que, com frequência, encaram os trajetos mais longos e os salários mais baixos.
Feito esse diagnóstico, o que dá para colocar em prática? Existem caminhos: reorganizar escalas em jornadas de doze horas para reduzir idas e voltas, oferecer carro de empresa ou veículo emprestado, conceder dias adicionais de RTT, ou criar uma compensação financeira para combustível. O entrave é que nenhuma dessas ações faz parte de uma política nacional coordenada. Assim, o governo “finge que não vê”, enquanto diversos países europeus colocam soluções concretas em campo para seus cidadãos.
A Comissão Europeia promete uma “caixa de ferramentas” para os Vinte e Sete, incluindo propostas para que a eletricidade seja menos tributada do que os combustíveis fósseis. Também é esperado um plano europeu de eletrificação para maio. No curto prazo, porém, especialistas convergem em um ponto: reduzir a demanda por combustível de forma coordenada continua sendo a alavanca mais eficaz. E o teletrabalho é a mais eficiente, a mais rápida e a menos cara entre elas.
Quanto seu trajeto casa-trabalho realmente custa em abril de 2026
O resultado assusta. Com diesel a 2,30 €/L e sem chumbo a 1,99 €/L (preço limitado TotalEnergies, mais caro em outros lugares), veja quanto pesa o deslocamento diário em 22 dias trabalhados por mês, considerando consumo médio de 6,5 L/100 km.
- 20 km por trecho (40 km/dia), o percurso “razoável”: 57 litros por mês, ou 131 € em diesel ou 113 € em SP95. Em um ano, isso dá cerca de 1 570 €.
- 30 km por trecho (60 km/dia), a média francesa: 86 litros por mês, ou 198 € em diesel ou 171 € em SP95. Custo anual: cerca de 2 370 €.
- 50 km por trecho (100 km/dia), perfil periurbano ou rural: 143 litros por mês, ou 329 € em diesel ou 285 € em SP95. Conta anual: cerca de 3 950 €.
E no caso do teletrabalho? Segundo a AIE, três dias de TT por semana reduzem a despesa com combustível em 20%. No perfil de 30 km, isso equivale a uma economia de aproximadamente 475 € ao ano, sem que a empresa desembolse um centavo. Para comparar, a indenização quilométrica paga por alguns empregadores é limitada a 200 € por ano. E o “forfait” de mobilidades sustentáveis, quando existe, não passa de 700 €… antes de impostos.
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